Casa Grande

A Casa Grande é um símbolo de fundação do município de Ribeirão Grande.

Patrimônio tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado – CONDEPHAAT. Processo 77706

Localizada na Rua Antônio Braziliense da Cruz, 22, no bairro dos Cruzes em Ribeirão Grande, estado de São Paulo, a Casa Grande é uma construção de de taipa de sopapo, o único remanescente desse tipo, um símbolo de fundação do município de Ribeirão Grande.

A Casa destaca-se como exemplo de arquitetura colonial, cujas paredes eram feitas de vigas de madeira e argila socada com as mãos, forma típica de construção durante os séculos XVIII e XIX. A argila era um dos poucos materiais disponíveis e encontrado em todo lugar durante aquele tempo, e portanto era amplamente utilizada nas construções e cobertura das casas .

Construída por volta de 1780, no primeiro núcleo de povoado do município chamado Bairro 3 Marias, (atual bairro dos Cruzes) ao redor do Rio Ribeirão Grande. A razão do nome antigo era porque havia três moças com o nome de Maria que cuidavam de um caminho que por baixo da mata que chegava até ao bairro Ribeirão Grande. A povoação formada ao redor da Casa Grande era na sua maioria formada por membros da família Cruz, que acabou por nomear o bairro a que originou.

A Casa Grande, além de abrigar a família Cruz, caracterizava-se por ser uma “venda” ou posto de trocas, utilizado por tropeiros que se dirigiam ao sul do país ou pelos “caçadores” de ouro de aluvião das Muralhas de Pedras ou Encanados, dos Rios das Almas, das Conchas e do Ribeirão Velho, no século XVIII.

A construção da Casa Grande

A Casa passou por diferentes momentos desde sua construção até a atualidade. Em um primeiro momento, por volta de 1780 até o início do século XX (1900), a casa se manteve em propriedade e uso da família Cruz. De aí por diante, a casa foi doada à Igreja do bairro, chamada Igreja do Belenzinho, e passou a servir como ponto de encontro para celebrações religiosas, festividades e encontros comunitários. Assim ela serviu ao bairro por mais de 100 anos. A manutenção e conservação da casa acontecia anualmente, dias antes das celebrações da Festa a Sant’Anna, padroeira do bairro, e, portanto, enquanto a casa foi mantida pela comunidade, anualmente, realizavam-se um puxirão, e eles barreavam a casa e passavam o cal.

Construção da Casa Grande – Pintura em Tela por Carlinhos Oliviera

No local também realizavam festas juninas, catequese e todas as ações da comunidade.

Durante esse período a Casa Grande também foi usada como local de reuniões para roda de causos, apresentação de grupos de dança, oficinas de identidade cultural e fortalecimento da cidadania, apresentação de músicas raízes, jantares com comidas típicas do município eventos e outras tradições culturais locais, além de atividade de organização social, trabalhos escolares.

Ao mesmo tempo, por ser uma construção bastante antiga, uma das poucas construções restantes do período histórico a que se associa, a casa se tornou alvo de interesses do poder público local, desde a época em que Ribeirão Grande  ainda pertencia como distrito de Capão Bonito.

“É uma edificação que pertence a uma sólida tradição construtiva caipira. De onde vem essa certeza ? Pela similaridade de traços impressos no edifício, com outros encontráveis em Itu, Porto Feliz, tanto rurais quanto urbanos. Há um elemento que quero destacar aqui, pois só observei nesse Circuito Caipira. trata-se de uma espécie de calombo horizontal, que aparece em paredes de pau-a-pique a meia altura e que causa estranheza, constroem-se através de uma verga de pau roliço, amarrado às varas verticais e que serve visivelmente para travá-las, mas que não se explica pela tradição construtiva do Velho Mundo (Europa – Mediterrâneo e Oriente longínquo). Encontra-se entretanto nas grandes construções autóctones pré-cabralinas, trata-se portanto presumivelmente de variante técnica local, daí sua designação como “técnica caipira”, união de técnica do mundo antigo com procedimentos conservados no novo-mundo. Mas o que mais me surpreendeu, foi ao ser levantada a casa com rigor métrico, a constatação de que as paredes periféricas obedeceram a um módulo de um metro e vinte centímetros (1,20m). É justamente o módulo registrado em um livro sobre industrialização da construção, para uma casa também em estrutura em gaiola construída em país do norte da Europa (ver Neuffert).”

Júlio Roberto Katinsky, 21/01/89 – Levantamento Inicial da Casa Grande – Marcelo F Sacco – Janeiro – 1989

Tombamento

Em 1983 vereadores do município de Capão Bonito entraram com um pedido ao CONDEPHAAT para o tombamento da casa como Patrimônio Cultural. Nesse pedido esteve em processo por trinta e três anos, até que em finais de 2016 a prefeitura de Ribeirão Grande foi notificada de que o pedido estava sendo julgado e o tombamento prestes a ser aceito pelo CONDEPHAAT, o que de fato ocorreu por unanimidade no final de 2018.

Nesses trinta e três anos, a casa ainda foi alvo de diferentes políticas públicas municipais, em especial a partir da emancipação de Ribeirão Grande como município. A partir do ano de 2005, a casa passou a servir como centro cultural administrado pela prefeitura municipal de Ribeirão Grande. Nesse período o poder público local assumiu a direção do imóvel, e realizou uma reforma retirando cômodos da casa que haviam sido anexados nos últimos 100 anos pela comunidade local para uso durante as celebrações.

Relato dos moradores

Segundo José Ipólito da Cruz ou popularmente “Zé Tomás”, essa é a história que vem sendo contada desde os primeiros habitantes do bairro dos Cruzes. Certo dia dois escravos apareceram na comunidade perguntando pela comissão da primeira igreja do bairro. Um dos escravos atendia pelo nome de Davi, e queriam autorização da comissão da igreja para construir uma casa no bairro, não para morar mas para descarregar as cargas da tropa até terminar os serviços do patrão. Autorizados pela comissão da igreja, começaram os trabalhos. Cortaram muita madeira e tiraram cipó das matas que existiam ao redor do bairro. Levantaram a casa até a metade e queriam parar, mas trabalharam a tempo. Quando terminaram deram o nome da casa de Casa Grande. Porém um dia os escravos desobedeceram as ordens dos senhores. Foram acorrentados e apanharam num dos cômodos da Casa Tiveram de ficar uma noite inteira sem poder sentar nem deitar como castigo. O tempo foi passando e com a abolição da escravidão a Casa Grande ficou para a comunidade.  Ainda segundo Zé Tomás, o bairro Ribeirão dos Cruzes no começo de seu povoamento chamava-se Bairro 3 Marias, porque havia três moças com o nome de Maria que cuidavam de um caminho que por baixo da mata chegava até ao bairro Ribeirão Grande. “Naquela época Ribeirão Grande ainda não era nem distrito de Capão Bonito”, acrescenta Tomás. A primeira igreja do bairro era construída de barro no lugar onde hoje se concentra o antigo cemitério das crianças e era conhecida por Capela da Nossa Senhora de Belém.

Veja também:

Igreja de Sant’Ana

Restauração da Casa Grande

Cuidar do patrimônio é dever de todos. Dia de 6 julho de 2019 será a data de início da recuperação desse importante patrimônio, uma mobilização entre comunidade local, iniciativa privada, Conselho Municipal de Turismo e poder público. Esse trabalho  já  está  sendo considerado pelo CONDEPHAAT um caso exemplar de mobilização para o restauro e preservação de patrimônio.

Onde fica?

Endereço: Rua Antônio Braziliense da Cruz, 22, Cruzes, Ribeirão Grande, SP

Abrir mapa

  • Coordenadoria de Turismo de Ribeirão Grande
  • Levantamento inicial da Casa Grande do bairro Ribeirão das Cruzes, Capão Bonito, Distrito de Ribeirão Grande, 1989 – Paulo Marcelo F. Sacco e Nagaaki Yasumoto
  • História da Casa Grande, Jornal GR – Gazeta de Ribeirão Grande Edição 1 de 8 de abril de 2005 – Por Cirineu Ferreira da Silva,
  • Casa Grande – Youtube – bit.ly/casagranderg
  • Importância da Casa Grande, 2017 – Doutora Cristina Fachinni

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