Bairro Ferreira dos Matos

O bairro Ferreira dos Matos surgiu em 1844 com a vinda de um morador chamado Tomé Ferreira. Provavelmente, sem precisão, vindo da direção de Apiaí – Ribeira. Vieram junto com ele, José Rodrigues Lisboa, que foi para o bairro do Baguassu cuidar de uma porção de terras e Américo Gomes de Queiroz que foi para as redondezas dos bairros Rodrigues e Queiroz.
O nome Ferreira dos Matos foi dado para diferenciar do outro bairro que já existia e chamava Ferreira das Almas, pois senão seriam dois bairros com o mesmo nome, no mesmo município (o território de Ribeirão Grande pertencia a Capão Bonito).

Comunidade unida

A religiosidade sempre foi o centro dessa comunidade. Sempre muito unidos, estão sempre dispostos a ajudar o próximo. Quando ocorre um funeral, quando ajudam algum morador que esteja passando por necessidades; existe também um grupo de voluntários que fazem trabalho com portadores de necessidades especiais, que eles chamam de “cadeirantes”. No último domingo do mês os reúnem e levam para um lanche, para fazer uma oração, jantar, passeios e inclusão no meio social. Segundo Zé Pedroso: “deve-se viver o evangelho na prática”.

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Capela de Santa Gertrudes

A padroeira do bairro é Santa Gertrudes. Na época havia no bairro uma moça chamada Gertrudes. Ela era filha de João Custódio e irmã de João de França (família de Tomé Ferreira). A moradora descobriu que havia uma santa com nome igual ao dela (Gertrudes). E foi através de João de Assunção, morador do bairro, pai de uma religiosa que era freira e morava em São Paulo que ela conseguiu uma réplica de Santa Gertrudes. Em 1.900 a santa foi transportada até o bairro em lombos de cavalos. Para abrigar a imagem foi construída uma capelinha feita de pau a pique e medindo mais ou menos 25 metros a qual os moradores chamavam de Belenzinho. Muitos moradores visitavam a capelinha. Hoje com uma igreja maior e com uma estrutura muito melhor, foi mandado fazer uma outra imagem de Santa Gertrudes para ser usada nas procissões. A primeira santa fica no altar e não é tirada de lá.

Gastronomia

A gastronomia da época era o feijão com toucinho. No ano de 1.920, eram feitos os mutirões de pessoas para trabalhar na lavoura de algodão. A comida era sempre o feijão com toucinho, que hoje conhecemos como feijoada. À noite após o serviço, faziam bailes e dançavam fandango.
Faziam também o biscoito que era feito de mandioca. Arrancavam a mandioca, tiravam a casca, lavavam e deixavam de molho para tirar o polvilho para fazer o biscoito e a goma usavam para fazer doce muito gostoso, que também era servido nos casamentos.
A produção do biscoito era uma tradição muito respeitada e era feita sempre na época da quaresma e semana santa. O dia de São João era também muito respeitado e todos os anos tinha festa junina. Marcavam um lugar para fazer a fogueira e todos se reuniam nesse mesmo lugar. As preparações para a festa eram muito bonitas. Faziam o biscoito e quem não fazia levava pão, faziam garrafas de café para levar e passavam a noite inteira se divertindo e comemorando. Depois que o galo cantava, daí que iam comer o que tinham levado. A luz que existia era só do lampião e da fogueira. Muitas vezes a noite era fria e no dia seguinte, quando amanhecia, estava tudo branco de geada.

Artesanato

Faziam muitos artesanatos, como banco de madeira, baú para guardar as roupas, tudo com o uso de facão e machado pois não existia serrote. Fabricavam também panela de barro que eram usados diariamente e umas bem maiores, onde eram feitas as comidas nos casamentos. Trabalhavam com produção de cestos que eram usados nos cargueiros que eram colocados na costa dos cavalos para transportar mercadorias. Sr. Zé Pedroso e o irmão viajaram muito em cargueiros, quando iam com o pai visitar o avô que morava no bairro Brandinos ou “Capoeira Alta dos Brandinos”.
As casas dos moradores também eram construídas através de mutirões. De 1975 até 1980, muitas casas foram construídas. Tiravam do mato as madeiras boas (cerne), barroteavam com madeira roliça e taquara do reino e amarravam com cipó. Depois disso preparavam o barro com a água que as mulheres traziam do rio em latas. Durante esse trabalho, surgiram muitos namoros entres os rapazes que as moças que estavam ajudando no trabalho. No final disso tinham os famosos bailes e o feijão com toucinho, quirela com costela e o doce de de mandioca.

O característico sotaque

O sotaque dos moradores é originado do aspecto religioso. As novenas eram escritas todas com ponto de interrogação no final. Acostumados a rezar usando a interrogação, também se acostumaram a falar como liam, ficando agudo, ou “esticado” no final.

Causos, curiosidades, cultura

Outra coisa interessante envolvendo São João, é sobre a plantação do alho. Se tinha um rapaz interessado numa moça e plantassem alho na véspera de São João e no dia seguinte o alho nascesse, era sinal de que o relacionamento iria dar certo. Outra crendice é que se na noite de São João, se alguém fosse lavar o rosto no rio, depois de o galo cantar e não aparecer a imagem da pessoa na água era sinal que iria morrer naquele ano.
Um fato interessante e verídico foi sobre um parente doente de Zé Pedroso, que numa noite de São João brincou e se divertiu com a criançada, num avião inventado por eles, onde a pessoa sentava dentro e carregavam o avião nas costas. O enfermo ficou tão feliz e disse que aquilo aumentou a vida dele em um ano. No ano seguinte, exatamente naquela mesma data (noite de São João) o homem faleceu.

O Fandango de Tamanco

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O bairro também é famoso pelo fandango de tamanco. O fandango vem desde a época do algodão em 1920, não se sabe onde surgiu mas deve seguir a tradição, pois os mais velhos trabalham muito as crianças nesse aspecto e hoje já tem crianças de dois anos que dançam fandango. Tem um que até chora quando param de dançar. Já crescem ouvindo e vivenciando o fandango. Existe uma associação que apoia o fandango e a prefeitura também dá uma certa ajuda.
Alguns versos do fandango vem da tradição, outros, são criados no próprio bairro pelos moradores, seguindo sempre o mesmo ritmo.

Fontes: Zé Pedroso, morador do bairro Ferreira dos Matos – Entrevista articulada durante o Curso de Resgate Cultural 2017 pelo Sindicato Rural de Capão Bonito.


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